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62% do setor automóvel já tem estratégia de sustentabilidade

62% do setor automóvel já tem estratégia de sustentabilidade

Um novo estudo da Capgemini revela que quase dois terços das empresas do setor automóvel já têm uma estratégia de sustentabilidade estruturada, mas a sua execução continua a ser fragmentada

As exigências dos consumidores transformaram a sustentabilidade num fator estratégico para o setor automóvel, revela o novo estudo do Capgemini Research Institute. O estudo também sublinha que o setor automóvel é o que lidera o cumprimento dos critérios de sustentabilidade em todo o mundo. Apesar disso, dos 74% dos fabricantes inquiridos que têm uma estratégia para os carros elétricos, apenas 56% a integraram numa abordagem sustentável. Também os níveis de investimento, de execução e de governação da sustentabilidade continuam muito aquém dos objetivos definidos pelo Acordo de Paris. 

O estudo The Automotive Industry in the Era of Sustainability revela que a indústria automóvel deve corrigir um défice de cerca de 20% nos seus atuais investimentos, para estar em linha com os objetivos definidos internacionalmente. Apenas 9% das 500 empresas do setor automóvel inquiridas no âmbito deste estudo, está em condições de poder ser classificada como “high-performing sustainability leaders”. Os restantes 91% das empresas nem sequer alcançou ainda o nível de maturidade no que diz respeito à sustentabilidade. O estudo considera mesmo que 26% das empresas inquiridas estão muito atrasadas nesta matéria. 

 

Principais conclusões 

A sustentabilidade tem vindo a ganhar relevância na indústria automóvel, tanto no que diz respeito à temática em si, como enquanto prioridade estratégica. Uma larga maioria (62%) das empresas do setor automóvel que foram inquiridas pelo estudo, afirmou que “dispõe de uma estratégia estruturada de desenvolvimento da sustentabilidade com objetivos e prazos bem definidos”, e apenas 8% das empresas revelou que ainda estava a preparar o desenvolvimento de uma estratégia nesta área. De uma forma geral, os especialistas em sustentabilidade em todo o mundo afirmaram que o setor automóvel está à frente das outras indústrias (46%), ou a par (19%) em matéria de sustentabilidade. O número de eventos organizados com temas sobre a sustentabilidade mais do que duplicou entre 2015 e 2019, passando de 142 para 320, respetivamente. Há, contudo, variações significativas entre os países no que diz respeito às iniciativas sobre sustentabilidade que estão em curso. A Alemanha e os EUA são os dois países que lideram o cumprimento dos aspetos prioritários, incluindo o "apoio e a promoção da economia circular" e os "processos industriais sustentáveis", enquanto os outros países estão muito atrás deles, incluindo no que diz respeito à "mobilidade e serviços digitais", ao "fornecimento de metais, materiais e produtos amigos do ambiente", e também na "computação sustentável", que inclui aspetos como o consumo de energia dos centros de dados. 

Um grande número de empresas não possui uma abordagem à sustentabilidade que seja holística e bem gerida, e apesar dos claros avanços do setor, existem algumas deficiências no foco para a melhoria da sustentabilidade. 

 

O estudo analisa a evolução de 14 iniciativas únicas que abarcam todos os aspetos da cadeia de valor automóvel, desde as relacionadas com o “desenvolvimento sustentável de Produtos de I&D”, até ao “apoio à economia circular”. O nível de esforço das várias iniciativas é irregular: 52% das empresas está a trabalhar em programas de economia circular, mas apenas 8% dizem respeito à sustentabilidade nas TI. Existem também diferenças no que diz respeito à atribuição de responsabilidades e competências, já que apenas 41% das empresas possui um órgão central dedicado à supervisão dos objetivos de sustentabilidade e apenas 45% envolve os seus gestores de topo nesta atividade, fixando-lhes o cumprimento de objetivos concretos nesta área. 

A nível mundial, apenas 19% das empresas têm pelo menos quatro objetivos quantificáveis correspondentes às áreas identificadas como as de grande impacto no desempenho da sua abordagem à sustentabilidade (a reciclagem de resíduos, o consumo de água e a ética no trabalho). 

Além disso, as atuais despesas correntes dos fabricantes automóveis em medidas de proteção do ambiente (excluindo os investimentos em I&D, a produção de carros elétricos e os serviços de mobilidade) estão longe dos objetivos definidos internacionalmente para a sustentabilidade: a diferença está estimada em 50 mil milhões de dólares. 

O estudo também se debruça sobre a análise dos principais programas de sustentabilidade do setor automóvel (carros elétricos e economia circular), e do que estes precisam para ser bem-sucedidos, concluindo que é necessário dar uma maior ênfase ao tema da sustentabilidade para que a transição para os carros elétricos seja realmente efetiva. 

Um dos aspetos mais críticos para os programas de sustentabilidade na indústria automóvel é a redução das emissões de gases com efeito de estufa. Os carros elétricos têm um impacto positivo muito significativo neste âmbito. Para que este impacto se estenda a todo o ciclo de vida dos carros elétricos, é essencial que a eletricidade de que se alimentam proceda de uma fonte de energia renovável. Porém, e de acordo com o estudo da Capgemini, apenas 15% dos fabricantes automóveis tem previsto vir a implementar infraestruturas de carregamento dos carros elétricos alimentadas com eletricidade produzida a partir de fontes renováveis. Adicionalmente, a produção de baterias gera uma pegada de carbono maior do que a resultante dos combustíveis fósseis e as limitadas reservas de lítio e de outros metais raros, exigem que os fabricantes produzam carros elétricos sustentáveis.  A economia circular (uma ferramenta essencial para ajudar a prolongar a vida útil dos veículos e das peças sobressalentes), bem como novos modelos de negócio, serão fatores críticos para que os carros elétricos alcancem todo o seu potencial de sustentabilidade.

As empresas do setor automóvel devem por isso aumentar a sua participação na economia circular.

Uma das formas mais eficazes das empresas do setor automóvel melhorarem os níveis de sustentabilidade é adotarem um sistema de economia circular. Este sistema aplica-se a várias áreas essenciais da sustentabilidade, desde a cadeia de abastecimento à reciclagem, passando pela política de compras e pelo pós-venda. Destacadas marcas do setor já demonstraram o quão eficaz pode ser este sistema: a Michelin reutiliza 85% dos pneus velhos recauchutando-os na sua fábrica do Reino Unido (o que contribui para a emissão de menos 60kg de carbono por pneu); já a GM gerou mil milhões de dólares com a venda de resíduos recicláveis.

No entanto, e segundo estudo da Capgemini, ainda falta muito para que os fabricantes do setor automóvel integrem totalmente um modelo de economia circular. As empresas inquiridas pelo estudo disseram que apenas 32% da sua cadeia de abastecimento contribui atualmente para a economia circular. Espera-se, contudo, que esta percentagem aumente para os 51% nos próximos cinco anos. Regista-se igualmente uma discrepância significativa entre as iniciativas da economia circular que são mais conhecidas (75% recicla um “volume considerável” de resíduos industriais e 71% incentiva a utilização de peças e componentes renovados junto dos utilizadores finais) e as menos conhecidas: só 51% está a fazer investimentos na infraestrutura e em competências capazes de garantir a reutilização de componentes antigos ou de sucata, e apenas 36% estabeleceram colaborações para darem uma segunda vida às baterias dos carros elétricos.

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