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"Todos vão ter um papel a desempenhar" na mobilidade urbana

"Todos vão ter um papel a desempenhar" na mobilidade urbana

No mais recente Índice de Tráfego Global Anual da TomTom, Lisboa ficou, pelo terceiro ano consecutivo, classificada como a cidade mais congestionada da Península Ibérica. Sofia Veríssimo, Country Manager da TomTom Portugal, partilha com a Smart Planet os detalhes destes resultados e de que forma é que esta informação pode ser usada no combate ao trânsito

Desde 2010, a TomTom publica todos os anos o seu Índice de Tráfego Global Anual, relatório que classifica os níveis de congestionamento de cidades em todo o mundo com base nos dados de trânsito recolhidos pelos seus sistemas de navegação. O Índice de Tráfego Global Anual 2019 analisou o trânsito em 403 cidades de 56 países – o maior número até à data – tendo por base dados granulares relativos a viagens reais dentro das cidades.

Sofia Veríssimo, Country Manager da TomTom Portugal, detalhou em entrevista com a Smart Planet os resultados do relatório e de que forma é que as cidades estão a usar esta informação para dar resposta ao crescente problema do congestionamento urbano.

Smart Planet – Em que consiste o Índice de Tráfego Global Anual da TomTom? Como é que o relatório é elaborado?

Sofia Veríssimo – O TomTom Traffic Index extrai insights dos dados de trânsito para que as entidades governamentais, rodoviárias, os próprios fabricantes de automóveis e os comuns condutores e cidadãos possam tomar decisões para aliviar o congestionamento do trânsito nas cidades. 

Este estudo é elaborado, na sua grande maioria, com base nos dados que nos são fornecidos pela nossa comunidade de condutores – a maior do mundo, neste momento mais de 100 milhões – juntamente com as nossas mais que 550 fontes a nível mundial. 

Para elaborar o relatório, são avaliados todos os troços de estradas de todas estas cidades, 24 horas por dia, 7 dias por semana, e são comparadas as horas de grande congestionamento e de trânsito fluido. Assim, quando falamos em percentagens de congestionamento, o valor significa que uma determinada pessoa teria uma viagem x% mais longa do que ao fazer o mesmo trajeto sem trânsito.

Esta edição é referente a 2018, e trás algumas novidades em relação às edições anteriores: trânsito em tempo real, por exemplo, e a possibilidade de comparar 2018 com 2017. O estudo inclui também quatro vezes mais dados do que nos anos anteriores, incluindo novas cidades e países, como por exemplo a Índia, o Japão, o Egipto e Colômbia.

Em que consistem essas fontes adicionais? 

Para além dos nossos dispositivos de condução, temos também parcerias com muitos fabricantes automóveis que integram a nossa navegação nos seus veículos. Obtemos uma grande quantidade de dados através da aplicação móvel TomTom, e pelas várias empresas que usam os nossos serviços.

 


"Em comparação com 2017, podemos verificar que 75% das cidades mantiveram ou aumentaram o nível de trânsito"


 

Qual foi o balanço para 2018?

O que temos verificado é que ao longo dos últimos anos, em particular na última década, o trânsito tem aumentado imenso nas cidades, o que tem muito a ver com o aumento da população mundial e migração para as cidades. Por um lado, isto é sinal de que a economia global está muito forte, mas por outro trás consigo duas grandes consequências: tem um impacto muito negativo no ambiente, e as pessoas perdem uma grande quantidade de tempo a viajar dentro das cidades.

Se avaliarmos este estudo em comparação com 2017, podemos verificar que 75% das cidades mantiveram ou aumentaram o nível de trânsito. Olhando para o ranking, as cidades com maiores taxas de congestionamento foram Bombaim, com cerca de 65% de congestionamento, que conseguiu descer um ponto percentual em relação a 2017, Bogotá, com 63% de congestionamento, e que agravou 1%, seguidos de Lima, Nova Deli e Moscovo. 

Se olharmos para a Europa, no Top 5 temos Moscovo, com 56%, que reduziu 1%, e Istambul, que conseguiu descer 6% para 53%, seguidos de Bucareste, São Petersburgo e Kiev. 

Em Portugal temos Lisboa em primeiro lugar – número 77 no ranking mundial – com um nível de congestionamento de de 32%, que se tem mantido estável desde 2017. O Porto está em segundo, e no ranking mundial fica em 121º lugar, com 28% de congestionamento, mais 1% desde o ano anterior.

Funchal, Braga e Coimbra subiram no ranking, mas têm taxas de congestionamento bastante mais reduzidas. 

 


"É importante que o crescimento populacional seja acompanhado pelo desenvolvimento de uma infraestrutura suficientemente grande, organizada e planeada"


 

Seria possível detalhar os resultados para Lisboa e Porto?

Em Lisboa, as pessoas estão a perder no trânsito, em média, 42 minutos por cada hora de viagem. Entrando em maior detalhe, conseguimos, em primeiro lugar, determinar que o nível de congestionamento nas autoestradas é mais baixo do que nas estradas: uma média de 23%, enquanto nas estradas é 32%.

Conseguimos também ver que o melhor dia de trânsito em 2018 foi 5 de agosto, com 9%, precisamente devido à altura do ano, e o pior dia foi dia 31 de outubro, com 77% de congestionamento, devido a uma greve nacional dos comboios. 

Podemos também saber a percentagem de congestionamento nas horas de ponta: de manhã 66% e ao final da tarde 62%. O pior dia para a hora de ponta da tarde em Lisboa é a sexta feira, a rondar o 80%, mas de manhã não varia muito.

No Porto, os automobilista perdem em média mais de 38 minutos no trânsito por hora. O nível de congestionamento nas autoestradas é bastante mais baixo do que em Lisboa, 19%, e também mais baixo que nas estradas, que têm um congestionamento de 32%. O melhor dia de transito foi dia 25 de dezembro, com 6% de congestionamento, e o pior dia foi 14 de fevereiro, com 57%, possivelmente devido à conjunção da data com um grande jogo de futebol que decorreu nesse dia.

Em relação a picos de trânsito durante a manhã, no Porto o pior dia é segunda feira; como em Lisboa, sexta-feira é o pior dia para a hora de ponta da tarde.

Verificaram algum denominador comum entre as cidades mais congestionadas, para lá da densidade populacional? É possível isolar outros fatores agravantes?

Cada  cidade é um caso. Tem tudo muito a ver com a infraestrutura e o investimento que as cidades fazem nas infraestruturas rodoviárias, transportes públicos, e o próprio desenvolvimento das cidades. Olhando para o ranking, muitas da cidades com classificação alta são de países menos desenvolvidos. É importante que o crescimento populacional seja acompanhado pelo desenvolvimento da cidade a todos os níveis, que haja uma infraestrutura suficientemente grande, organizada e planeada para permitir que as pessoas possam viver e desfrutar da sua cidade.

 


 "Todos vão ter um  papel a desempenhar: as entidades rodoviárias, os residentes, os fabricantes de automóveis, os próprios cidadãos"


 

Como é que a TomTom está a ajudar as cidades a abordar este problema?

A TomTom trabalha diretamente com várias cidades e países neste sentido. Esta informação é detalhada ao ponto de conseguimos saber, em cada cidade, quais são os locais, horas e dias mais complicados. Dotar as entidades responsáveis desta informação é crucial para que possam atuar sobre os locais identificados como sendo mais problemáticos, e a partir daí podem tomar decisões informadas: alterar a infraestrutura das estradas, investir mais nos transportes públicos, ciclovias, transportes alternativos, etc.

Exemplo disto é Moscovo. A cidade está liderar o índice europeu porque está a crescer muito rapidamente, mas está também a fazer um grande esforço no combate ao tráfego, e sem dúvida que estas medidas serão essenciais para que, no médio prazo, os níveis de congestionamento desçam consideravelmente.

Estas medidas incluem 63 novas estações de metro, a abertura do circulo central de Moscovo, 148 novas rotas de autocarro e elétrico desde 2010, novos túneis e a implementação de faixas exclusivas para carros partilhados. Um resultado disto, por exemplo, foi uma subida de 14% das viagens por transporte público desde 2010; nas horas de ponta, 68% dos cidadãos utilizam transportes públicos.

Por outro lado, a Índia –  que teve duas cidades no Top 5 mundial –  tomou a decisão de entrar no maior programa de cidades inteligente do mundo para fomentar a inovação e soluções de mobilidade, e está a fazer investimentos avultados na participação ativa na indústria e startups locais.

Mas todos vão ter um  papel a desempenhar: as entidades rodoviárias, os residentes, os fabricantes de automóveis, os próprios cidadãos. Uma das razões mais importantes pelas quais fazemos este estudo é permitir que as pessoas olhem para esta informação e pensem como é que podem efetivamente reduzir o tempo que passam no trânsito todos os dias.

As empresas também têm um papel determinante: devem fomentar horários mais flexíveis e o trabalho remoto sempre que possível, porque isto também iria contribuir para que o congestionamento fosse aliviado.

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