SMART CITIES
A inteligência urbana dos municípios portugueses

A inteligência urbana dos municípios portugueses

Em entrevista com a Smart Planet, Miguel de Castro Neto, Subdiretor da Nova IMS, explica como é que a tecnologia já está a mudar os modelos de governação das cidades e vilas portuguesas – e os desafios que estas terão de ultrapassar para alcançar a inteligência urbana a longo prazo

O conceito de smart city pode ainda parecer a muitos algo do domínio do futuro, ou pelo menos algo que está apenas ao alcance das grandes cidades em países com muita riqueza. A verdade, no entanto, é que isto é algo que já está a acontecer, não só em Portugal como fora das grandes cidades, com iniciativas a nascerem em cidades e vilas por todo o país.

Miguel de Castro Neto, Subdiretor da Nova IMS, e coordenador da iniciativa NOVA Cidade – Urban Analytics Lab –, partilha com a Smart Planet os desafios e oportunidades da inteligência urbana para os municípios portugueses.

Smart Planet – Como é que a inteligência urbana está a transformar os modelos de governação?

Miguel de Castro Neto – Se olharmos para o enquadramento global, temos um dos objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU com que Portugal se comprometeu, que é as Cidades e Comunidades Sustentáveis. E o que é que está por detrás disto? É a questão da sustentabilidade, da inclusão, da segurança e da resiliência. 

Isto enquadra, de alguma forma, os desafios que as cidades enfrentam: conseguir gerir infraestruturas e prestar serviços de qualidade ao cidadão, a quem visita, trabalha, ou vive nas cidades. Por outro lado, temos também de responder ao maior problema que a humanidade enfrenta, que é o da emergência climática. Temos, portanto, de alterar comportamentos, reduzir o consumo de energia, reduzir a produção de resíduos, etc. 

É neste contexto que surge a inteligência urbana e, fruto da transformação digital, veio dar-nos os meios para criarmos novos modelos de governação nas cidades, em que, tirando partido da tecnologia, conseguimos alterar os modelos de governação – nomeadamente, o planeamento e a gestão das cidades. Conseguimos retirar os dados das cidades. 

Com a Internet das Coisas podemos sensorizar tudo e isto complementa a capacidade que já tínhamos para utilizar os nossos sistemas de gestão da cidade para tirar partido da inteligência coletiva – ou seja, do que é que o cidadão faz, o que é que o cidadão dá à cidade que pode alimentar este novo modelo de governação das cidades. 

E, de facto, temos um verdadeiro manancial de dados, como nunca tivemos antes. Isso coloca-nos um desafio: se somos capazes ou não de transformar os dados em informação.   

 


“O foco não é a tecnologia. O foco é o problema. O foco é o cidadão. A partir daí tiramos partido da melhor tecnologia disponível”


 

Como é que garantimos que se tira de facto partido destas tecnologias a longo prazo?

Existem hoje imensos exemplos de cidades que, independentemente da sua localização ou da sua dimensão, conseguem desenvolver projetos de inteligência urbana muito interessantes e, julgo eu, sustentáveis a médio-longo prazo.

Mas temos de resistir àquela tentação comum que é fazer pilotos. Fazer um piloto não tem resultados efetivos: é uma demonstração de capacidade, mas a demonstração já está feita. Não é preciso, numa determinada cidade, fazer uma coisa para saber que o resultado deste piloto vai ser igual a todos os outros pilotos que já se fizeram noutras cidades. 

E aí é que surge uma grande oportunidade que temos em Portugal, que é as nossas pequenas e médias cidades e vilas.

Um piloto em Lisboa pode ter a dimensão de um projeto transformador numa pequena cidade ou vila portuguesa. Portanto, se eu fizer o mesmo piloto numa pequena cidade ou vila de Portugal, não estou a fazer um piloto: estou a mudar toda a comunidade.  

Para mim é  essa a questão: fazer projetos que efetivamente alterem a realidade e promovam a mudança e façam este caminho na direção da inteligência urbana. 

Isto é muito  importante. Não podemos esquecer – apesar de pessoalmente achar que já passámos essa fase – é que o foco não é a tecnologia. O foco é o problema. O foco é o cidadão, e a partir daí tiramos partido da melhor tecnologia disponível. 

Mas isso acho que hoje em dia também é uma realidade e se olharmos para as cidades e vilas portuguesas que hoje em dia têm boas experiências para mostrar, dá para perceber que é isso que está a acontecer.

 


“O primeiro passo é devolver a cidade às pessoas”


 

Quais diria que são os principais obstáculos que as cidades têm de transpor para se tornarem inteligentes?

Se pudesse decidir os passos para tornar uma cidade mais inteligente – e, para mim, uma cidade inteligente é uma cidade sustentável em termos económicos, sociais e ambientais – a minha ambição seria garantir que conseguissem ter um ambiente feliz.  Uma “livable city”. 

E, para isso acontecer, o primeiro passo é devolver a cidade às pessoas. É criar oportunidade para que as pessoas possam viver na sua cidade, no centro da sua cidade, e desfrutar do espaço público. 

Se é verdade que precisamos de tirar partido da tecnologia para otimizar os serviços e sistemas da cidade – isso para mim são problemas que já estão resolvidos. Vai-se ao mercado, compra-se a melhor solução, e hoje o retorno do investimento é garantido. 

Mas já não estamos aí; o verdadeiro desafio é garantir que a cidade seja do cidadão, e para isso acontecer temos de conseguir garantir um ambiente em que as pessoas queiram estar e queiram viver. E nós assistimos hoje a cidades que conseguem vencer o desafio que é retirar o espaço público de outras ocupações – nomeadamente a utilização do automóvel – e devolver o espaço público ao cidadão. 

Independentemente de serem boas ou más iniciativas, já vemos hoje intervenções a serem feitas – por exemplo, em Lisboa, o Saldanha, que era uma zona inóspita, hoje é um espaço público em que vemos pessoas ao final da tarde, a viver e a conviver. 

Durante muitos anos, temos vindo a desenvolver políticas públicas que complicaram este desígnio. Praticamente todas as cidades e vilas deste país construíram espaços comerciais excêntricos aos centros das cidades, a pensar que este seria um motor do desenvolvimento económico. 

O resultado foi o esvaziamento dos centros da cidades e das zonas históricas, a sua degradação, e hoje o que verificamos é que estamos a fazer exatamente o caminho inverso: a procurar conseguir ter as zonas centrais das cidades vividas. 

Isto também coloca outro desafio: não basta só ter o espaço público com pessoas. Temos de garantir que tudo isto é um processo economicamente sustentável. Se não o for, o processo é inviável. Assim, temos também de fatorizar o comércio, atividade económica que capture valor. 

Isto leva-nos então a outro desafio, sendo Portugal com um país com uma ambição imensa e com resultados muito concretos em termos de turismo: as cidades não estão a gerir o turismo que têm. Estamos a recebê-lo, mas a cidade, no seu todo, não o está a gerir. Alguém tem de estar a coordenar como a logística e a alocar os recursos. Não podemos ter concentrações de pessoas a utilizar recursos sem haver um enquadramentro adequado. 

 


“A única limitação à criação de novos produtos e serviços de inteligência urbana não é o dinheiro, não é a tecnologia, mas sim a criatividade”


 

De modo geral, diria que Portugal tem a maturidade digital necessária para isto? Por exemplo, cidades do interior com menos fundos e menos contacto com as empresas e universidades terão a capacidade de adotar estas iniciativas?

Quando olho para a maturidade portuguesa, em termos de inteligência urbana, não vejo uma divisão entre litoral e interior. Vemos, hoje em dia, pequenas e médias cidades e vilas portuguesas com ótimos exemplos de soluções de inteligência urbana.

Mais do que isto, vemos exemplos de como é que, numa pequena cidade ou vila, o município pode ser ele próprio uma alavanca para o empreendedorismo, para a inovação e para a criação de novas empresas. A inteligência urbana pode ser um motor para a captação de investimento, para a fixação desse investimento e para a criação de emprego – e já há exemplos disso. 

Em Viseu, uma empresa começou a desenvolver um software de participação pública, mas ainda não tinha conseguido obter clientes e entrar no mercado. O município disponibilizou-se para testar o software, e ainda hoje este é utilizado em inúmeras câmaras portuguesas; é até mesmo usado no orçamento participativo de Portugal, e já conseguiu internacionalizar-se. E foi um município do interior que criou as condições para tudo isto acontecer. 

Portanto, nesta questão da inteligência urbana, há aqui uma questão que é distintiva do passado: a única limitação à criação de novos produtos e serviços de inteligência urbana é a criatividade. Não é o dinheiro, não é a tecnologia – havendo um cérebro, podem-se criar soluções muito interessantes. 

Portanto, não precisamos de estar num grande centro urbano. Podemos construir estas soluções em qualquer parte, e já estamos a ver isso a acontecer. O Fundão, por exemplo, cobriu todo o concelho com uma rede LoRa, para que qualquer pessoa possa ligar sensores, recolher dados e experimentar. Exemplos não faltam.

 


“O investimento em si não é um sinal de inteligência. A inteligência em si é o que nós fazemos com o investimento”


 

Nos últimos anos, muitas cidades começaram a apresentar-se como smart cities por coisas tão simples como iluminação pública LED ou Wi-Fi pública. A que ponto é que uma cidade passa a ser inteligente? 

O facto de uma cidade investir em mudar a iluminação publica para LED apenas significa que está a adotar a melhor tecnologia disponível em termos de custo, eficiência e sustentabilidade. Não é de todo um sinal de inteligência urbana. 

Um sinal de inteligência urbana na iluminação pública seria planear a localização das luminárias em função do tráfego de pessoas e veículos, da segurança, da criminalidade, dos acidentes. Seria gerir a iluminação pública em função do tráfego, em função da iluminação natural.

Ou coisas ainda mais simples. Por exemplo, se alguém regista no sistema da câmara para ocupação da via pública que na próxima sexta feira certa praça vai ter uma feira das seis às dez da noite, a cidade pode ajustar-se: neste período, a iluminação é intensificada, há mais segurança, há reforço da higiene urbana, os transportes públicos são reforçados. E podemos ir ainda mais longe: os transportes públicos oferecem bilhetes conjuntos para aquele evento, para as pessoas não irem de automóvel e usarem os transportes públicos. Se é, por exemplo, um teatro num bairro, quando chega a hora do evento e só têm quarenta ou cinquenta bilhetes vendidos podem enviar um sms aos habitantes do bairro a oferecer um desconto.

No Wi-Fi é exatamente a mesma coisa. As operadoras de telecomunicações vendem serviços de informação com base nos metadados; porque é que os municípios, que detêm dados de Wi-Fi pública, não são eles a criarem estes insights? Se eles têm esses dados do Wi-Fi, porque é que a rede de Wi-Fi não é, em vez de uma fonte de custos, uma fonte de receitas e de criação de valor? 

O investimento em si não é um sinal de inteligência. A inteligência em si é o que nós fazemos com o investimento. Se bem que, no que toca ao Wi-Fi, defendo que o território e a cidade verdadeiramente inteligentes só vão acontecer quando tivermos uma cobertura 100% do território. Esse seria o maior contributo que podíamos dar para mudar o país e tem um custo, do meu ponto de vista, perfeitamente irrisório

 


“Não vai haver a capacidade de todas as cidades investirem em soluções diferentes. Têm de criar sinergias e tirar partido de tecnologia que é igual”


 

Como é que se garante a sustentabilidade destes projetos de forma a passar do projeto piloto para o longo-prazo?

Para já, há uma dimensão política nestes projetos de inteligência urbana. Para todos os efeitos, quem governa as cidades é alguém que foi eleito para um determinado mandato, e esse mandato tem uma duração. É preciso perceber que nem tudo é possível e nem tudo se pode fazer. Temos como exemplo Barcelona: era a cidade mais inteligente do mundo e o presidente da câmara perdeu as eleições. 

Foi precisamente por isso que fizemos uma parceria com a Associação Nacional de Municípios Portugueses, na qual criámos a Smart Cities Tour. E esta Smart Cities Tour tem um terceiro vértice, que são as empresas. Todos os anos, durante dois ou três meses, fazemos uma tour pelo pais em que visitamos municípios, fazemos workshops, e estes workshops têm sempre a presença da academia, do território e das empresas, em que nós partilhamos projetos que estão a acontecer no terreno. As empresas apresentam novas soluções e tecnologias e a academia apresenta projetos que vai desenvolvendo, com a ambição de partilhar boas práticas. 

Porque o maior problema que temos hoje é a falta de conhecimento e a difícil comunicação do que faz e como é que se faz. Neste tour, o principal benefício que as pessoas apontavam é puderam tomar conhecimento de outro município com um projeto praticamente igual e contactaram o técnico responsável.

Depois há a dimensão do desenvolvimento e da sustentabilidade. Quando falamos destes verticais – da solução de eficiência, de resíduos sólidos urbanos, etc. – já ficou demonstrado que é viável e tem retorno; isto não é tão crítico. 

O que de facto é necessário é obter investimentos com alguma dimensão e não há instrumentos direcionados para este tema. O que há são medidas dispersas, o que leva a que os municípios se adaptem e façam investimentos em função da candidatura e não em função da estratégia de inteligência, porque têm de tomar partido do que acontece. 

Agora, a ambição é que no próximo quadro comunitário haja efetivamente um quadro de financiamento para uma inteligência urbana sustentável, eficiente, inclusiva e segura. Mas é preciso que isto aconteça, porque de facto é preciso investimento e também é preciso que as empresas percebam que não vai haver a capacidade de todas as cidades investirem em soluções diferentes. Tem de começar a existir aqui um trabalho, a várias escalas territoriais, para criar sinergias e tirar partido de tecnologia que é igual. 

Não faz sentido, em pequenos municípios estar cada um a fazer uma plataforma se há comunidades intermunicipais que também podem desempenhar aqui um papel. Em suma, há muito trabalho a fazer para construir esta inteligência territorial nas várias escalas geográficas e espaciais com que trabalhamos. Aliás, é um trabalho que está a ser feito.

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