SMART CITIES
“Portugal está muito desenvolvido" em termos de smart cities

“Portugal está muito desenvolvido" em termos de smart cities

Tiago Andrade, Diretor Comercial da Compta, partilha com a Smart Planet a sua visão da maturidade digital das cidades portuguesas, desafios a ultrapassar e previsões para o futuro na área das cidades inteligentes

Fundada em 1972, a Compta é a mais antiga tecnológica portuguesa. Foi há já oito anos que começou a investir na IoT na área de logística, seguida da gestão de resíduos sólidos urbanos, e, mais tarde, eficiência energética. Mais recentemente, expandiu-se para a área de prevenção de incêndios florestais e industriais com a sua solução Bee2FireDetection, a qual foi vencedora mundial do concurso IBM Watson Build.

Atualmente, a Compta é líder no mercado português de smart cities e IoT, com soluções implementadas em 47 cidades em todo o país.

Smart Planet - Em que setores é que a IoT tem mais presença em Portugal?

Tiago Andrade - Na parte das cidades, sem dúvida, e no setor da indústria – o que chamamos hoje em dia a Indústria 4.0. Temos muitos clientes que estão a usar os nossos sistemas não só na parte de consumo de energia, mas também para gestão de processos, gestão de output de produção, vários tipos de gestão de consumo em real time, por linha e por capacidade produtiva. É algo que está claramente em voga e é muito interessante o tipo de investimento que está a acontecer nestes setores.

 

Em que áreas é que Portugal está mais desenvolvido em termos de smart cities?

Diria que Portugal está muito desenvolvido nesta área. Apesar da nossa dimensão de mercado, temos muitos players com capacidade para o desenvolver. Em termos de verticais, a área de resíduos é claramente uma delas, bem como a área de energia e a prevenção de incêndios, na qual somos líderes. Há bons exemplos em Portugal de tudo isto.

Em que é que consiste a vossa oferta de gestão de resíduos sólidos urbanos?

O nosso sistema funciona com base em módulos. O módulo-base permite saber a localização do camião, se bascula determinado contentor ou não, a sua velocidade, o tipo de travagens e acelerações, se o percurso que está desenhado é cumprido pelo motorista, etc..

Outro módulo consiste em identificar a volumetria do contentor, seja reportado pelo funcionário no camião seja com recurso a sondas. A vantagem de ter sondas nos contentores é que conseguimos saber em tempo real a volumetria do condutor e perceber se faz sentido ou não ser levantado.

Daí otimizar ainda mais a eficiência do percurso: em vez de ter de passar em todos os contentores passa só a levantar os que têm mesmo de ser recolhidos e assim temos menos tempo de operação, menos custos, e podemos alargar o percurso camião a mais contentores em vez de simplesmente fazer mais voltas até encher o camião. 

Temos também apps móveis para interação com o cidadão, apps de operação que as próprias câmaras municipais utilizam para perceber a gestão de contentores, a gestão de percurso , manutenção de contentores. 

Temos um sistema PAYT (Pay As You Throw) de “poluidor pagador” para o qual o nosso sistema está preparado e tem as configurações necessárias para que qualquer entidade municipal o possa implementar. 

Estes são apenas alguns exemplos. Existem muitas funcionalidades possíveis para dar resposta àquilo que o cliente— seja o operador de resíduos, a câmara municipal ou a entidade supramunicipal— quer aplicar à sua operação.

Que tipo de resultados é que as autarquias têm conseguido com este sistema?

Em média, o nosso software permite poupar entre 30% e 50% do custo da operação ao fazer a otimização da alocação de recursos, ciclos de manutenção dos camiões, ciclos de operação, ciclos de recolha. Quanto menos o camião for usado menos manutenção requer — e só a manutenção é caríssima. É uma aplicação que, de facto, é essencial. Qualquer município pode e deve beneficiar de uma solução deste género.

E em termos de gestão de energia e iluminação pública?

O nosso sistema de gestão de energia tanto gere iluminação pública, como edifícios. Em termos de iluminação pública, o que faz é gerir a iluminação ponto-a-ponto – luminária-a-luminária -, se estas tiverem inteligência, caso contrário esta gestão será feita via posto de transformação. 

No fundo, o que fazemos é otimizar ainda mais a utilização das luminárias – à partida, a luminária será LED, portanto já existe uma poupança grande associada. A partir daqui, é possível adicionar um comportamento de dimming em função da luminosidade, o que vai gerar uma poupança adicional. Portanto, onde já existia uma poupança de 60% o software permite obter um acréscimo de 5 a 7%.

Em termos de edifícios, o nosso sistema de gestão de energia permite gerir tudo, desde adequar o consumo de energia do edifício à sua ocupação, regular as luzes consoante a luminosidade exterior, etc.

Em termos de smart cities, temos exemplos práticos como o de uma piscina municipal. O nosso sistema de gestão tem por norma um output (dashboard) que transmite ao utilizador informação visual sobre o que foi consumido energeticamente. Ao colocar um destes dashboards à entrada de uma piscina municipal, os utilizadores ficam automaticamente alertas para a sua pegada energética e, ao criar essa consciência, o consumo de gás desce, porque este tipo de indicador faz com que as pessoas tomem banho de água quente durante menos tempo e consumam menos energia.

Na indústria temos poupanças significativas, não só em termos do consumo energético mas também no consumo de gás, ar comprimido, água – tudo passa pelo nosso sistema e é gerido pelo mesmo.

Que projetos é que a Compta já implementou em Portugal?

Na cidade de Lisboa temos a nossa solução de gestão de resíduos urbanos Bee2Waste e em  Abrantes estamos a trabalhar em diversos verticais – resíduos urbanos, eficiência energética, eficiência hídrica, interação com o cidadão, gestão de iluminação pública, videovigilância, etc.. Temos também Viseu, na parte de gestão hídrica, gestão da interação com o cidadão, gestão de resíduos sólidos urbanos e eficiência energética.

O que é a Bee2FireDetection?

A Bee2Fire tem duas possíveis aplicações – industrial e florestal. Na parte florestal, que é a parte implementada pelos municípios, é usada a deteção espetrométrica, térmica, e visual. Tipicamente, o sistema usa combinações de dois tipos de deteção – por exemplo, térmica com visual – e tem um alcance de 'x' quilómetros, dentro do qual consegue detetar um foco de incêndio.

A partir dessa identificação e do lançamento do alarme, consegue gerar dados para perceber como e em que direção é que o fogo vai crescer porque tem dados carregados em tempo real das condições meteorológicas como o vento e a humidade relativa, e a partir daí consegue determinar para onde é que o fogo vai crescer. Também consegue simular barreiras de contenção do fogo com meios. Toda esta componente é gerido e gerado com dados em real time do Weather Company e da inteligência artificial IBM Watson.

Onde é que está a ser implementada?

A parte florestal está de momento ativa na Amazónia, em duas grandes empresas que têm plantações de eucalipto, uma delas quase do tamanho de Portugal.

Quais são os principais desafios que as autarquias enfrentam na implementação e aproveitamento deste tipo de soluções?

Em primeiro lugar, conseguir fundos. Em segundo, coordenar e tentar gerir várias tipologias de solução e de fornecedores diferentes – é necessário agregar e gerir tudo com o mesmo sistema, ou pelo menos o mesmo output informativo. 

O terceiro desafio é gerir, a partir do momento em que as coisas estão implementadas, toda a informação que vem é tomar decisões sobre ela. As cidades querem sensorisar com um objetivo muito concreto em mente: querem saber mais de forma a poderem tomar melhores decisões. E isto é um processo que não acaba, há sempre mais coisas que se vão construindo umas em cima das outras.

Como é que a Compta está a ajudar as autarquias a dar resposta a estes problemas? 

Na parte de consultoria, por um lado. Por outro lado, através do fornecimento de soluções, que são as melhores no mercado português e permitem obter resultados concretos através de informação concreta. Outra é no crescimento das soluções e a transversalidade das soluções e a ligação das soluções a plataformas horizontais como o IOC da IBM.

Quais serão as tendências para smart cities no futuro próximo?

A parte de segurança do IoT, que é um desafio, a parte do blockchain, quando aplicável – acho que são dois desafios grandes, que vão ocupar os próximos anos nesta área de negócio e implementação. Outra área muito interessante é o open data – os dados gerados serem depois disponibilizados às autarquias e às entidades civis para construir analytics e inteligência para serem usados em outras aplicações. São três desafios que vejo que estão a ser seguidos e que são tendências.

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