ENERGIAS
Otimização dos processos pode reduzir despesas energéticas para metade

Otimização dos processos pode reduzir despesas energéticas para metade

A Smart Planet fala com Luisa Matos, CEO da Virtual Power Solutions, empresa especializada no desenvolvimento de plataformas dinâmicas de gestão de energia que, através do aumento da eficiência energética e otimização dos processos, permitem minimizar o consumo, conseguindo, em alguns casos, poupanças na ordem dos 50%

Numa era em que a crescente necessidade de descarbonização e o rápido ritmo da economia criam pressões contrárias sobre as empresas, é cada vez mais importante conseguir otimizar a eficiência dos processos para reduzir o consumo energético sem comprometer a produtividade. Em entrevista com a Smart Planet, Luisa Matos, CEO da Virtual Power Solutions, e Nuno Francisco, Marketing & Sales Director, explicam de que forma a empresa ajuda os seus clientes a alcançar poupanças de até 50% no seu consumo energético através da gestão inteligente de sistemas.

 

Smart Planet: Que tipo de soluções oferece a VPS? Em que áreas atuam?

Luisa Matos: A VPS é uma empresa tecnológica focada na área da energia, concretamente naquilo que é um esforço para a descarbonização dos nossos clientes. Para isso oferecemos um conjunto de plataformas, desenvolvidas internamente, bem com o nosso conhecimento na área da gestão de energia. Para além de equipas de desenvolvimento, mais focadas no IT, nas plataformas de software e hardware, temos também uma equipa de especialistas dedicados a compreender a realidade dos nossos clientes, identificando oportunidades para os ajudar a ser mais eficientes ao detetar e eliminar desperdícios. 

Assim, a gestão de energia é das grandes áreas que em que estamos a atuar. Depois trabalhamos também com utilities – em Portugal, por exemplo, temos no nosso portfólio de clientes todas as empresas incumbentes. 

Estamos também a fazer negócios noutros países, nomeadamente Brasil e Reino Unido. 

Estamos agora também com um grande foco na área das comunidades de energia; na realidade, já trabalhamos há pelo menos 10 anos nesta área em específica. Ultimamente, temos feito até alguns projetos piloto, onde criamos de facto comunidades com partilha de energia, estudando os benefícios não só económicos mas também sociais. 

E agora, finalmente, desde janeiro deste ano, já é formalmente permitido criar comunidades de energia em Portugal, devido à transposição parcial da diretiva da União Europeia relacionada com a gestão de energia renovável para a legislação nacional, e começámos a avançar com algumas iniciativas nesse sentido. 

 

EM termos das plataformas mencionadas, em que constitui a vossa oferta?

LM: Nós temos uma arquitetura tecnológica que nos permite ter aqui vários interfaces. No fundo, temos aqui um sistema de backoffice que pode ser configurado para criar modelos de dados e de funcionalidades que depois servem várias interfaces. 

As interfaces que estamos agora a trabalhar mais é o Kinsense, que é uma ferramenta mais robusta de gestão de energia, que se pode adaptar a vários sectores. Temos também outra ferramenta que é o Kiplo, mais ligado à área dos mercados de energia e utilities.

Temos também o Cloogy, que é um produto já mais antigo, a servir o mercado doméstico, a gestão de energia em casa ou pequenos escritórios.

Este conjunto abrangente de soluções permite que, quando pensamos nas comunidades de energia, possamos ter interfaces que ligam vários tipos de instalações à comunidade de energia sem grandes limitações, podendo desenvolver mais interfaces consoante os projectos que estamos a trabalhar, tanto em web como em mobile.

 

Quando fala em comunidades de energia, estamos a falar de micro-redes?

LM: Não necessariamente; podem ser, mas o conceito é mais abrangente. A legislação publicada em Portugal abrange comunidades de energias renováveis que não estejam isoladas da rede, portanto estamos a falar de produção de energia dentro de uma comunidade, mas não do suprimento total das suas necessidades. 

Há um equilíbrio entre aquilo que é a produção local, que são comunidades limitadas em termos de espaço geográfico – de facto, existe uma percentagem da energia que é produzida e consumida dentro da comunidade – e a energia que vem da rede. Pode inclusivamente haver também injeção de energia na rede. É claro que o objetivo é que seja toda consumida entre os membros da comunidade, mas não é a única possibilidade.

 

Já existem projetos desta natureza em Portugal?

LM: Em Portugal ainda não; em termos de legislação só desde janeiro é que passou a ser possível fazer projetos deste género, e nós temos estado a falar com várias entidades e stakeholders com vista a criar estas comunidades de energia partilhada. No Brasil já temos uma presença muito maior nesta área, no âmbito da partilha da energia de produtores de forma descentralizada.

 

E que resultados é que estas comunidades têm tido?

Nuno FranciscoOs resultados no Brasil são bastante promissores e, no geral, e estão a ter repercussões muito significativas em termos de adesão de entidades. Muitas empresas de grande dimensão, por exemplo com redes de retalho significativas, optaram por fazer investimentos de produção fotovoltaica, nos quais a energia é depois dividida dentro destas cadeias de retalho. Este é o exemplo mais habitual da comunidades energéticas.

 

Portanto, estas comunidades acabam por ser também economicamente ligadas?

NF: Sim, o princípio fundamental acaba por ser esse. Acaba por ser um conceito menos centrado na questão das micro-redes ou de uma comunidade de âmbito geográfico muito restrito e mais numa comunidade abrangente – neste caso ao nível estadual – e na valorização monetária da energia; o câmbio é gerido através dessa nossa ferramenta.

 

Qual diria que são os resultados típicos deste tipo de projetos, em termos de poupança energética?

LM: Normalmente há um modelo em que o próprio dono das instalações consumidoras, neste caso das lojas, é também o dono dos ativos de produção de energia, e assim ele próprio faz o investimento e retira daí um determinado retorno. Nesta perspectiva é possível ter reduções de custo de praticamente 50%, porque estamos a falar num horizonte temporal muito alargado.

Há um outro cenário possível, que é o cenário em que o investidor é proprietário apenas dos ativos de consumo, e ele próprio investe nessa central de produção, pelo que o modelo de negócio acaba por ser um pouco diferente. Nestes casos, normalmente as reduções de custo são na casa dos 10%, sendo que no longo prazo se prevê que se vejam de reduções maiores. Isto porque estes projetos estão normalmente divididos em duas fases: uma primeira fase em que há um investidor e depois uma segunda fase mais para a frente em que o investidor já não está envolvido no processo.

 

E relativamente à área de gestão de energia, como é que operam?

LM: Na área da gestão de energia, pretendemos sempre agir como parceiros dos nossos clientes, no sentido em que os podemos ajudar não só a reduzir os seus custos mas também ter um papel importante na descarbonização da economia. Cada um de nós, mesmo nas nossas casas, mas nas empresas, nas entidades públicas, temos um papel importante naquilo que é o esforço para a descarbonização. E nós aparecemos aqui como um parceiro do nosso cliente e podemos olhar para um caminho que ele pode fazer connosco. E isto não significa que tenha que investir uma enormidade no início; há pequenos passos que podem ser tomados para iniciar este processo. 

 

NF: O princípio por detrás da nossa abordagem é que é progressiva. Qualquer entidade – seja do sector hoteleiro, banca, retalho, utilities, indústria – pode atingir poupanças até 30, 40, 50%, às vezes até mais. Mas não é preciso, nem é boa prática, tentar fazer logo isso de uma vez; é um processo que é progressivo. 

Normalmente o que propomos é, em primeiro lugar, tomar bom partido das tarifas, avaliar os preços e os contratos que temos atualmente, e garantir que os clientes não estão a gastar dinheiro desnecessariamente. Isto pode garantir que, com um investimento reduzidíssimo, se alcancem poupanças até 5%. 

Depois há o passo a seguir que é perceber onde é que a energia está a ser gasta: quais são os equipamentos que estão ligados quando não deveriam estar, qual é o uso típico de cada ativo, a que temperatura é que os escritórios são mantidos, como é que está a funcionar determinada máquina no processo produtivo. E nesta segunda iteração é possível, nalguns casos, poupar até 20% do consumo. 

E aqui ainda estamos a falar de eficiência, estamos a falar de reduzir e de eliminar custos que são desnecessários. A seguir ainda há o terceiro passo, que é a questão da descarbonização propriamente dita; onde antes a energia provinha de qualquer tipo de fonte poluente, passa-se a investir num fotovoltaico ou numa mini-hídrica, e para conseguir produzir energia a um custo muito mais baixo e sem, neste caso, emissão de CO2. É aqui que chegamos aos 40 ou 50% de poupança. 

 

Que outros sistemas é que a VPS trabalha a nível das empresas, em termos de optimização?

NF: Depende do tipo de sector que estamos a trabalhar. A climatização é um tema que interessa principalmente nos edifícios com alta ocupação, por exemplo na hotelaria. Interessa em todas as áreas que envolvam escritórios. Também interessa nas redes de retalho, porque existe um consumo intensivo. No fundo, a climatização é transversal a muitos sectores. Depois há áreas que são um pouco mais específicas; por exemplo, na indústria otimizamos o funcionamento do ar comprimido, ajudamos os clientes a identificar qual poderá ser a melhor utilização de, por exemplo, de um forno, ou ajudamo-lo a otimizar um moinho ou uma linha de produção ou um qualquer equipamento no seu processo produtivo que tenha um determinado custo em energia. 

Estamos sempre a falar em usar melhor, pequenas alterações do processo produtivo que depois se transformam em reduções cumulativas. A poupança de energia nestas empresas é, às vezes, 30% do total de custos. Também há uma componente de gestão da produção; é preciso, quando se analisa se vale a pena produzir uma palete de determinado produto,  contabilizar os custos de energia, e o que nós fazemos é, de alguma forma, ajudá-los a preparar esta informação para que possam tomar decisões informadas 

 

Quais são os principais setores em que operam?

LM: Temos trabalhado muito na área da banca; todos os principais bancos a operar em Portugal são nossos clientes. Temos também projetos com vários grupos hoteleiros, bem como todos os aeroportos internacionais em Portugal. 

Trabalhamos também muito a indústria, principalmente indústrias com um consumo mais intenso da energia. No sector público, temos trabalhado muito com câmaras municipais e escolas, inclusive no âmbito de projetos pedagógicos. Temos também a área do retalho, em particular centros comerciais. 

Trabalhamos ainda na área das utilities, com empresas de produção, distribuição e comercialização. 

Estamos agora a perceber que há aqui uma necessidade também acrescida deste tipo de empresas com atividade e consumos muito intensos.

Quando pensamos na área da energia e naquilo que é a nossa missão, de facto acabamos por ter uma grande abrangência de sectores. Mas no fundo, quando pensa daqui concretamente no produto no Kinsense, a vantagem é que é bastante flexível, o que nos permite adaptá-lo à realidade de vários sectores, e acaba por ser uma plataforma modelar que depois se adapta consoante o sector que estamos aqui a trabalhar, mesmo até por exemplo criando KPIs de desempenho que podemos configurar especificamente para determinado sector, ou ligando a sistemas existentes do cliente, e que podem fornecer dados concretos da própria operação. 

Por vezes, saber que conseguimos determinada redução não nos diz nada – é preciso correlacionar os resultados com aquilo que é a atividade do nosso cliente. Isto para dizer que o facto de conseguirmos trabalhar vários sectores advém muito do facto de termos uma plataforma que é bastante flexível e modelar, que nos permite adaptar a várias realidades, desde um passo inicial onde nem sequer precisamos de ir às instalações do cliente porque podemos obter informação através de API a outros sistemas que o cliente tenha localmente para, com um custo muito reduzido, começar a dar os primeiros passos. Conseguimos abordar muitos sectores porque temos essa flexibilidade. 

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