O evento “Rumo ao Net Zero”, organizado pela Repsol, destacou o papel de Sines na transição energética industrial. O Governo sublinhou a importância do investimento privado e da previsibilidade para atrair projetos estratégicos
|
Sines voltou a posicionar-se como um dos principais eixos da estratégia nacional de descarbonização industrial, no âmbito do evento “Rumo ao Net Zero: Sines e os caminhos para a descarbonização da indústria”. A iniciativa reuniu representantes do Governo, da indústria e de empresas internacionais para discutir investimento, energia e competitividade num contexto de transição energética. Manuel Castro Almeida, ministro da Economia e Coesão Territorial, destacou a relevância do investimento da Repsol em Sines, no valor de 820 milhões de euros, enquadrando-o como um sinal de confiança no país. Também António Brufau, presidente da Repsol, enquadrou o investimento em Sines num contexto mais amplo de transformação económica e energética na Europa. O responsável sublinhou o momento de incerteza global e os desafios colocados à competitividade industrial europeia, marcados por tensões geopolíticas e mudanças aceleradas nos setores da energia, da tecnologia e da inteligência artificial. Para António Brufau, a competitividade industrial europeia depende, antes de mais, de garantir energia segura e a custos competitivos. “Garantir um abastecimento energético seguro, acessível e competitivo tornou-se um pilar central da competitividade industrial e da autonomia estratégica da Europa”, afirmou, ao defender uma política energética orientada para a soberania económica face a choques externos e à volatilidade dos preços. Previsibilidade e energia como fatores críticos para o investimentoPor sua vez, o ministro da Economia e Coesão Territorial defendeu uma relação de parceria entre o Estado e os investidores, clarificando o papel da Administração Pública, uma vez que considera que “os serviços públicos existem para trabalhar lado a lado com quem investe, procurando soluções e resultados, sempre no respeito pela legalidade”, disse, acrescentando que a ambição do Governo passa por melhorar a atuação administrativa no futuro. Num contexto internacional que classificou como particularmente instável, Manuel Castro Almeida apontou a previsibilidade como um fator crítico para a atração de investimento. “O papel do Governo e da Administração Pública portuguesa é simples e exigente: ser um fator de estabilidade, previsibilidade e confiança, não um elemento adicional de incerteza”, afirmou. Para isso, defendeu decisões mais rápidas e maior clareza regulatória como forma de compensar a volatilidade externa, bem como medidas como a redução gradual do imposto sobre os lucros das empresas e a necessidade de encurtar tempos de decisão e reduzir burocracia. Além disso o ministro enquadrou estas opções na prioridade política definida pelo atual Governo e reforçou que “um Governo que assume o crescimento como prioridade não pode criar entraves às empresas. A primeira obrigação do Estado é não atrapalhar”. Para apoiar projetos estratégicos, foi criado um mecanismo de coordenação através da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal, envolvendo vários membros do Governo. Segundo Manuel Castro Almeida, o objetivo passa por “identificar e desbloquear investimentos que enfrentam dificuldades administrativas”, garantindo aplicação coerente da lei e evitando atrasos desnecessários, muitas vezes consequência da falta de articulação entre entidades públicas. Sines como plataforma energética e industrial na transição verde“Sines tem características únicas, desde o porto, a plataforma industrial, a complementaridade entre empresas e, sobretudo, a energia. A energia será cada vez mais um fator decisivo nas decisões de investimento”, salientando as condições diferenciadoras do território. Paralelamente, destacou ainda os indicadores nacionais na transição energética, referindo que cerca de 71% da eletricidade consumida em Portugal tem origem renovável e que os preços para consumidores não domésticos estão cerca de 25% abaixo da média europeia. Manuel Castro Almeida apontou também que industrialização, transição energética, digitalização e Inteligência Artificial devem avançar em conjunto e afirmou que “algo estará errado se forem colocados em conflito”, ao reforçar que o investimento industrial é compatível com os objetivos de descarbonização. O governante destacou o impacto económico do investimento, tanto ao nível do emprego qualificado como da atividade.“O investimento direto estrangeiro é bem-vindo em Portugal. Não temos qualquer problema com a palavra lucro. O problema é o prejuízo”, afirmou. A prioridade, frisou, é crescer e reduzir a distância do PIB per capita face à média europeia. |