Uma nova abordagem europeia está a mudar a forma como a indústria olha para a inovação: segurança, impacto ambiental, utilização de recursos e circularidade passam a ser considerados ainda na fase de conceção.
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Um produto pode chegar ao mercado dentro de alguns anos, mas as decisões que vão determinar o seu impacto podem ser tomadas muito antes. A escolha de uma matéria-prima, de uma substância ou de um processo de fabrico pode influenciar a segurança dos trabalhadores, o consumo de recursos, os resíduos gerados, os custos de produção e o impacto ambiental durante todo o ciclo de vida. A questão é saber se estes problemas podem ser antecipados enquanto ainda há tempo para escolher outra solução. É esta a lógica do Safe and Sustainable by Design (SSbD), uma abordagem promovida pela Comissão Europeia que pretende integrar segurança e sustentabilidade nas primeiras etapas da investigação e inovação. Em vez de avaliar uma tecnologia quando está praticamente concluída, a proposta é introduzir estes critérios enquanto ainda é possível alterar o seu desenho. A mudança de paradigma pode parecer simples, mas tem consequências importantes para a indústria. Uma alteração feita durante a fase de conceção pode ser relativamente fácil. A mesma alteração depois de uma tecnologia estar desenvolvida, testada e integrada numa linha de produção pode representar tempo, investimento e recursos adicionais.
A pergunta já não é apenas se funcionaDurante muito tempo, o desenvolvimento de novos produtos esteve sobretudo centrado no desempenho: funciona? É eficiente? É economicamente viável? A abordagem SSbD acrescenta outras perguntas: é seguro? Que impacto terá no ambiente? Que recursos exige? O que acontece quando deixar de ser utilizado? Existem alternativas com menor risco ou menor impacto? Há dependência de matérias-primas críticas? A resposta não passa necessariamente por escolher a alternativa com melhor desempenho numa única variável. O objetivo é comparar diferentes opções e perceber qual apresenta o melhor equilíbrio entre desempenho, segurança, sustentabilidade e viabilidade. Numa nova formulação, por exemplo, diferentes substâncias podem ser analisadas tendo em conta os seus perigos, impactos ambientais, custos, possibilidade de recuperação ou reutilização e dependência de matérias-primas críticas. Num processo industrial, a análise pode incluir os riscos para os trabalhadores, o consumo de energia e água, as emissões, os resíduos e as possibilidades de circularidade. A abordagem pode também ser aplicada ao desenvolvimento de novos materiais e tecnologias, combinando a caracterização experimental com a avaliação antecipada dos seus potenciais riscos e impactos.
Da obrigação à oportunidadeA importância desta abordagem não está apenas na capacidade de cumprir regras. Para as empresas, antecipar problemas pode significar evitar alterações tardias, reduzir custos e preparar soluções para um mercado onde as exigências ambientais e de segurança tendem a ganhar peso. Segurança e sustentabilidade passam, assim, a ser consideradas também como variáveis de negócio. Uma empresa que identifique antecipadamente a dependência de uma matéria-prima crítica, por exemplo, pode procurar alternativas antes de enfrentar uma limitação de fornecimento. Da mesma forma, reduzir o consumo de recursos ou facilitar a recuperação de materiais pode melhorar simultaneamente o desempenho ambiental e a eficiência de um processo.
O laboratório onde estas decisões começamEntidades tecnológicas como o ISQ podem desempenhar um papel de ligação entre investigação e indústria. A aplicação do SSbD exige conhecimento de diferentes áreas. Dependendo da tecnologia, podem ser combinadas metodologias de identificação de perigos e avaliação de riscos com avaliação de ciclo de vida (LCA), análise de custos ao longo do ciclo de vida (LCC), avaliação social do ciclo de vida, análise de circularidade, identificação de matérias-primas críticas e simulação de processos. O objetivo é transformar informação técnica dispersa em decisões de desenvolvimento. O ISQ tem vindo a consolidar experiência nesta área através da participação em projetos e consórcios europeus de investigação. Para a indústria europeia, esta capacidade pode tornar-se particularmente relevante num contexto marcado pela transição energética, pela pressão sobre os recursos, pela necessidade de maior circularidade e por cadeias de abastecimento sujeitas a novas vulnerabilidades. Para o ISQ, o desafio passa por ajudar a transformar estes princípios em ferramentas concretas de apoio à inovação, aproximando ciência, tecnologia e indústria. |